Consuma bom vinho com moderação

Temos hoje uma tendência crescente, alimentada por alguns comentadores, influenciadores e autoproclamados especialistas das redes sociais, para tratar o vinho como se fosse um inimigo público, um produto cuja única consequência fosse a doença e cujo desaparecimento representasse um ganho inequívoco para a saúde da nossa sociedade.

Esta visão simplista é não só intelectualmente pobre, como profundamente injusta e gratuita.

Ninguém de bom senso defende o consumo excessivo e descontrolado de álcool. Os seus riscos são conhecidos e devem ser comunicados de forma clara. Mas uma coisa é promover a moderação e a responsabilidade; outra, muito diferente, é demonizar um produto que faz parte da identidade dos povos mediterrânicos há milhares de anos.

O vinho nunca foi apenas uma bebida. É agricultura, é paisagem, é património, é cultura e é economia. É o resultado do trabalho de milhares de viticultores que moldaram territórios inteiros, preservaram encostas, combateram o abandono rural e construíram algumas das paisagens mais emblemáticas do mundo, como o Douro.

Quando se faz um ataque indiscriminado ao vinho, não se está apenas a falar de saúde pública. Está-se também a atingir milhares de famílias que vivem da vinha, centenas de empresas, milhares de postos de trabalho e regiões inteiras cuja sustentabilidade económica depende da fileira do vinho.

É igualmente desvalorizar que Portugal é hoje um dos grandes destinos mundiais do enoturismo. Todos os anos recebemos visitantes que procuram conhecer a nossa história através dos vinhos, da gastronomia, da paisagem e das tradições. O vinho é um dos mais poderosos embaixadores da marca Portugal e uma das principais razões que levam muitos turistas a visitar o interior do país. Nos anos 80 a marca mais valiosa de Portugal era a marca Mateus Rosé.

Infelizmente, alguns preferem o discurso fácil e populista. Procuram títulos impactantes, frases absolutas e mensagens simplificadas que geram cliques e partilhas. É muito mais fácil condenar do que explicar. Muito mais simples criar medo do que promover uma cultura de responsabilidade.

A sociedade precisa de informação rigorosa, não de moralismos. Precisa de educação para o consumo responsável, não de campanhas que colocam no mesmo plano quem aprecia um copo de vinho à refeição e quem faz do abuso um hábito.

O verdadeiro desafio não é eliminar o vinho da nossa cultura. É promover uma relação equilibrada com ele, respeitando a evidência científica, mas também a história, a identidade e a realidade económica de um país onde o vinho representa muito mais do que aquilo que cabe dentro de um copo.

Defender o vinho não é defender excessos. É defender uma cultura milenar, um território, milhares de produtores e uma forma responsável de viver que não pode ser reduzida a slogans ou a julgamentos apressados das redes sociais.