Nesta primeira celebração do novo ano viemos à presença do Senhor com o coração cheio de esperança e o pensamento repleto de projetos. A nossa oração comum dirige-se a Deus, nosso Pai, para que nos proteja e abençoe, e volta-se também para Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe, para que nos ampare ao longo do caminho deste ano.

Os homens e mulheres de boa vontade partilham de um anseio comum: que os conflitos que grassam (e desgraçam) em várias partes do mundo, desde a Ucrânia, ao Médio Oriente, a várias zonas de África, cheguem ao seu fim e se encontrem soluções de paz justa e duradoura. Neste Dia Mundial da Paz rezamos pela paz com a consciência de que só ela abrirá caminhos de esperança num futuro melhor para as famílias, para os povos e sobretudo para as novas gerações.

Em pleno tempo de Natal celebramos a vinda do Redentor e reconhecemos n’Ele o «Príncipe da Paz», Aquele que é o grande sinal da reconciliação de Deus. Na pessoa do Filho, Deus revela o seu rosto e volta-se para nós, iniciando assim um tempo novo, um tempo de salvação. Este menino dado ao mundo por Maria representou para muitos a realização das suas esperanças. Ele é o grande mensageiro da paz.

O trecho do evangelho refere que os pastores «dirigiram-se apressadamente para Belém e encontraram Maria, José e o Menino deitado na manjedoura». A pressa dos pastores assinalava a necessidade e a urgência do encontro com Aquele veio do céu para iluminar os caminhos do mundo. Diante do quadro simples mas surpreendente do presépio, os pastores deixaram-se encantar, falam sobre o menino e com o coração a transbordar de alegria, regressaram «glorificando e louvando a Deus». São o testemunho de que os mais pobres encontram no presépio Aquele que é a razão da sua esperança. No menino nascido em Belém redescobriram o maior motivo para dar graças a Deus e para experimentarem a verdadeira paz.

Reunidos à volta do altar neste primeiro dia do ano, somos também convidados a dar graças a Deus, porque Aquele cujo nascimento em Belém foi motivo de alegria, na sua Páscoa abriu à humanidade a porta da vida e da esperança. Neste «ano da graça de 2025» comecemos por dar graças a Deus porque nos permitiu chegar a este dia e iniciar um ano especial, um «ano jubilar».

Na sua mensagem para este Dia Mundial da Paz, o Papa Francisco faz apelo a uma profunda «mudança cultural», indispensável para que, durante o evento jubilar se possam ocorrer algumas transformações. Um aspeto essencial dessa mudança é o sentido da gratidão. No nosso tempo, apesar de todos os meios e capacidades que a humanidade foi desenvolvendo, o ser humano não pode perder o sentido de gratidão. «Quando não há gratidão, escreve o Papa, o homem deixa de reconhecer os dons de Deus».

O Criador concedeu-nos os dons inestimáveis da vida e do tempo, uma família e um planeta para habitar, tantas condições para vivermos. Em seu Filho ofereceu-nos ainda o perdão dos nossos pecados e a salvação. A perda ou esquecimento do sentido de gratidão pode induzir uma série de desequilíbrios: o desrespeito pela vida, pelo outro, pelo planeta, a prevalência do mais forte sobre o mais fraco e as injustiças que daí podem advir.

Uma mudança cultural que favoreça uma sociedade mais justa e pacífica supõe aprofundar a consciência de que somos devedores. Cada pessoa, olhando com verdade a sua própria história, reconhecerá que deve algo à sua família e aos seus amigos, deve algo aos seus professores e formadores; reconhecerá que recebeu muito da sociedade, do povo a que pertence, sem esquecer tudo o que recebeu de Deus. Além das dívidas que afligem tantas famílias e países, existe esta dívida existencial: somos devedores a muitas pessoas e a Deus; temos razões para lhes estar gratos.

Esta mudança é condição prévia para promover a pedagogia da paz e fomentar uma maior responsabilidade social. De outra forma crescerá o individualismo, não haverá limite para a satisfação de necessidades e direitos, desligados do sentido dos deveres. Sem sentido de gratidão e de responsabilidade social, poderão crescer radicalismos, fraturas sociais  e várias formas de prepotência e violência.

Iniciamos o novo ano a rezar pela paz. Unidos a todos os crentes, pedimos a Deus que «nos perdoe as nossas culpas» e que «nos conceda a sua paz». Uma oração que repetimos diariamente, despertando assim as nossas consciências para que não fiquem indiferentes perante os dramas das guerras e não adormeçam, pensando que a paz que aqui usufruimos é um bem definitivo. A paz é um valor precioso mas frágil.

Rezar pela paz comporta, por isso, um forte compromisso em promover uma cultura de diálogo e encontro, uma cultura que se empenha em conhecer e respeitar a diversidade de pessoas e tradições. Um diálogo que, para ser autêntico e consequente, deve ter como pressuposto o conhecimento e valorização da nossa própria identidade, história e cultura.

A cultura do diálogo faz germinar a paz nos corações, nas famílias e nas sociedades. Ela sustenta a convicção de que vale a pena ter esperança. Pelo contrário, quem semeia a violência e promove a guerra é responsável pelo imenso rasto de sofrimento e pela morte de muitos sonhos e projetos de futuro.

O Papa Francisco, no espírito do ano jubilar, apresentou algumas ações concretas para favorecer a paz: o perdão da dívidas, a promoção da vida e o fim da pena de morte e a utilização dos meios económicos gastos em armamento para acabar com a fome e investir na educação. Que elas sejam atendidas pelos poderosos do mundo mas sirvam também de inspiração para as decisões de cada pessoa para o novo ano. Ser sinal e instrumento de paz é uma das decisões mais belas e frutuosas que poderemos tomar. Dessa forma viveremos o ano novo segundo o Espírito de Jesus, isto é no Espírito de filhos que clamam: «Abbá! Pai!» e que cumprem a sua vontade.

Que o Senhor nos abençoe na paz. Feliz ano novo para todos.

Vila Real, 1 de janeiro de 2025