O cancro do ovário continua a representar um dos maiores desafios na área da oncologia ginecológica devido à dificuldade no diagnóstico precoce e à elevada agressividade de muitos tumores. O alerta é deixado por especialistas ligados ao projeto saBeR mais ContA, no âmbito do Dia Mundial do Cancro do Ovário, data que assinala também o arranque de uma nova campanha de sensibilização dedicada aos cancros hereditários.

Segundo a Dr.ª Sofia Fernandes, representante da Sociedade Portuguesa de Genética Humana, cerca de 25% dos casos de cancro do ovário estão associados a alterações genéticas, incluindo mutações nos genes BRCA1 e BRCA2. Embora o risco de desenvolver a doença ao longo da vida seja de 1% a 2% na população feminina em geral, esse valor pode aumentar significativamente nas mulheres portadoras destas alterações genéticas.

A especialista explica que o termo “cancro hereditário” se aplica quando existe uma alteração genética que aumenta a probabilidade de desenvolver determinados tipos de cancro, muitas vezes em idades mais jovens.

Já a Dr.ª Mónica Pires, da Sociedade Portuguesa de Ginecologia, sublinha que o cancro do ovário é frequentemente apelidado de “cancro silencioso”, uma vez que os sintomas iniciais são vagos e facilmente confundidos com problemas digestivos comuns. Entre os sinais mais frequentes estão sensação de inchaço abdominal, náuseas, alterações intestinais, sintomas urinários, fadiga persistente e perda de peso involuntária.

Apesar da inespecificidade dos sintomas, os especialistas alertam para a importância de valorizar sinais persistentes e procurar avaliação médica atempada.

O avanço do conhecimento genético tem vindo a transformar a abordagem clínica da doença. Atualmente, todas as doentes com cancro do ovário epitelial não mucinoso devem realizar estudo genético, independentemente da idade ou historial familiar. Esta avaliação permite orientar tratamentos mais personalizados e definir estratégias de vigilância para familiares diretos que possam também ser portadores das mutações.

Além do impacto clínico, o diagnóstico genético pode ter implicações emocionais e familiares significativas. Tamara Milagre, da Associação EVITA – Cancro Hereditário, destaca a importância do apoio psicológico e do acesso a informação clara, defendendo que uma pessoa bem informada tende a lidar melhor com o diagnóstico e a tomar decisões mais conscientes.

A responsável alerta ainda para a baixa literacia genética existente em Portugal e recorda que a associação desenvolveu a EVITA Platform, um portal digital que ajuda a identificar situações em que pode ser aconselhado o acompanhamento genético.

A nova edição da campanha do projeto saBeR mais ContA irá decorrer ao longo do ano e pretende reforçar o conhecimento da população sobre os cancros hereditários, promovendo decisões mais informadas para doentes e famílias.

A iniciativa conta com o apoio de várias associações de doentes, sociedades científicas e entidades da área da saúde, incluindo a Sociedade Portuguesa de Oncologia, a Sociedade Portuguesa de Senologia e a AstraZeneca.